A Tecnologia Contemporânea: Rupturas e Continuidades - Bernard Stiegler
A Tecnologia Contemporânea: Rupturas e
Continuidades
com
Bernard Stiegler
Ruth Scheps: Uma das principais
características da tecnologia é que ela leva infalivelmente a indagar sobre o futuro, futuro que parece, doravante, depender muito de mudanças biotecnológicas e informáticas já em curso...
Podemos, então, perguntar-nos de que maneira o próximo século sucederá o nosso: Em ruptura ou em continuidade?
Bernard Stiegler: Temos hoje a sensação de que a tecnologia é, na verdade, orientada para uma profunda transformação de sua própria natureza, e não é, em absoluto, evidente que as pessoas tenham tido essa sensação nos séculos anteriores. Por outro lado, vivemos em um século em que se pode ver no future escrito nos muros, isso no momento mesmo em que a tecnologia se desenvolve de modo mais intenso do que nunca. Ao mesmo tempo, temos a sensação de sermos transportados para o futuro por um fantástico fenômeno de transformação, e a impressão de que esse futuro está fechado. A meu ver, isso diz respeito ao fato de que a ruptura que estamos vivendo é de um alcance comparável à do período Neolítico.
Isto posto, evitemos esquecer a continuidade, apagar a imensa antiguidade do problema que entra hoje em fase de extrema intensificação. Só pensamos na ruptura destacando-a do fundo de continuidade de onde ela emerge. Então, é preciso inscrever a singularidade de nossa época em uma história das rupturas, e, para começar, especificar o que é a técnica em geral.
Você diz em sua obra La faute d'Épiméthée que a técnica é o que prolonga a vida por outros meios que não a vida, e que sua evolução prolonga a evolução biológica, um pouco como Clausewitz dizia: "A guerra é o que prolonga a política, por outros meios”.Por isso, é preciso examinar o que são esses outros meios e como eles intervêm na historia dos seres vivos. Isto é, o que fizeram principalmente três grandes pensadores da técnica: o historiador Bertrand Gille, o pré-historiador e etnólogo André Leroi Gourhan e o filósofo Gilbert Simondon. Qual é a parte de cada um deles na compreensão que se pode ter hoje dessas mudanças e estruturas técnicas?
André Leroi Gourhan abordou essas questões primeiro como etnólogo. Durante os anos 30 e 40 deste século, ele adiantou o conceito de tendência técnica. Enquanto fazia pesquisas etnográficas no oceano Pacifico, entre povos "primitivos" muito distantes uns dos outros, que ele tinha certeza que não mantinham nenhum contato, e entre os quais, por conseguinte, nenhuma influência cultural era concebível, ele descobriu instrumentos que, entretanto, eram comuns a eles: os arpões, por exemplo, tinham as mesmas formas, as mesmas características. Ele formulou, então, a hipótese de que existiam, na morfogênese dos objetos técnicos, tendências técnicas universais, e colocou o princípio de uma universalidade tendencial da evolução, o que é extremamente importante, pois isso significaria que a técnica tem capacidades evolutivas autônomas em
relação aos seres vivos. Em seu primeiro período – isso foi durante a ascensão das idéias racistas segundo as quais o desenvolvimento técnico provinha do gênio ariano , Leroi-Gourhan estabeleceu que a chamada
teoria de "difusão das técnicas por círculos concêntricos" refletia um ponto de vista totalmente ideológico. Na seqüência, ele se tornou, sobretudo pré-historiador (e é assim que é conhecido hoje) e paleontólogo, e estudou a hominização (O processo evolutivo pelo qual a espécie humana se constituiu, tomando as características físicas, fisiológicas e psíquicas que a distinguem dos demais primatas) desenvolvendo sua teoria da tendência técnica. Ele qualifica, então, o surgimento dos objetos técnicos de processo de exteriorização, no qual o princípio da diferenciação vital prossegue fora do próprio ser vivo. A vida é um processo de evolução que se caracteriza; na verdade, por uma intensa diferenciação que para no homem, no nível fisiológico, e prossegue fora do homem. O que faz o dinamismo do homem é, portanto, sua técnica, e não seu princípio de evolução corporal, se posso falar assim, ainda que essa evolução corporal entre hoje, novamente - mas, desta vez, pela técnica - em uma fase de transformação, como se a diferença entre técnica e ser vivo tendesse a se apagar. Hoje, na verdade, parece que a técnica está em via de ser interiorizada pelo próprio ser vivo.
Bertrand Gille adota outro ponto de vista, pois é historiador e o período que ele estuda quase não excede quatro mil anos, ao passo que Leroi Gourhan trabalhava em cima de quatro milhões de anos! Bertrand Gille desenvolveu um conceito extremamente importante que é o de sistema técnico, para o qual ele se refere aos trabalhos de Lucien Febvre que, por volta de 1935, deplorava a inexistência de uma história das técnicas dotada de seus próprios instrumentos conceituais. Bertrand Gille assinala que essa deploração de Febvre
não faria sentido se ele não desse seqüência à famosa tese de um certo Lefebvre Des Noettes, comandante de cavalaria do exército francês: havendo se interessado pela história da atrelagem e da selagem do cavalo, ele sustentara a hipótese de que as técnicas do cavalo podiam ter levado ao desaparecimento da escravidão e que, por conseguinte, esta se devia bem mais a uma evolução técnica do que uma vontade do homem (ele não diz nesses termos, mas pode se deduzi-lo de seu trabalho). Se levarmos essa idéia a sério, seria uma verdadeira bordoada, pois a técnicarepresentaria na história humana um papel bem mais importante do que se pensou até então!
O que é uma fonte de esperança para alguns e de angustia para outros...
A partir daí, Bertrand Gille diz que é indispensável construir conceitos para apreender a dificílima história das técnicas. O primeiro conceito que ele adianta é o de sistema técnico, que, por um lado, representa um estágio, mais ou menos duradouro, da evolução técnica, mas, por outro lado, permite, segundo Bertrand Gille (que não esqueçamos, pensa e escreve em uma época ainda dominada pelo estruturalismo), formalizar as relações que a técnica mantém com as outras dimensões do fato humano, o que talvez seja ainda mais importante. Ele distingue, assim, o sistema técnico daquilo que chama, no fim de seus Prolégomènes, de "os outros sistemas": jurídico, político, econômico etc.
Com base nessas análises, tentei salientar a idéia de que o sistema técnico está, de certo modo, sempre adiantado em relação aos outros sistemas humanos. Ele tem uma tendência a diferenciar-se e, ao fazê-lo, a entrar em contradição com os outros sistemas. Peguemos, por exemplo, a siderurgia francesa no início do século XIX: os grandes mestres de forja franceses fizeram, naquela época, investimentos que eles resgataram; portanto, eles não têm vontade de curvar-se à lei da evolução técnica que se anuncia na Inglaterra e que os forçaria a reinvestir. Por conseguinte, vão resistir à evolução dos sistemas técnicos. Aliás, a técnica em geral sempre desencadeia resistências, mas o que sobressai das análises de Bertrand Gille é que ela sempre acaba ganhando.
Outro aspecto importantíssimo desse pensamento é que ele põe perfeitamente em evidência que, a partir do século XIX e, depois, com a segunda revolução industrial, por volta de 1880, e mais ainda hoje, na
alvorada do século XXI, assistimos a um grande fenômeno de ruptura na história social, técnica, econômica e política, que nos faz entrar no que chamo de a era da inovação permanente. Ainda não avaliamos bem essa mudança, mas lembremo-nos de que, em meados do século XVIII, a maioria dos franceses vivem no campo, e estão ainda em um mundo quase imutável para eles: produzem-se transformações, por certo, mas não debaixo de seus olhos.
É a própria idéia de temporalidade, que mudou completamente desde então, e, a propósito da técnica que se acha de repente em estado de permanente inovação, penso no papel muitas vezes pioneiro que representam os artistas de uma determinada época em relação aos desenvolvimentos futuros, e pergunto-me se não poderíamos estabelecer uma espécie de paralelo nesse nível entre arte e técnica...
Aí está um assunto que me interessa muito e sobre o qual talvez seja preciso começar por mobilizar Nietzsche, que pensou o poder e a vontade, mas também a criação e o papel do artista. Mais perto de nós, o que você acaba de dizer me faz pensar no artista australiano Stelarc, que considera que é ao artista que cabe conduzir os novos processos de diferenciação do corpo. Ele não hesita em dizer, por exemplo, que a diferença homem mulher ficou obsoleta ou está ficando, que a verdadeira diferenciação em curso já não diz respeito ao homem e à mulher, mas ao homem e à máquina, e que o artista deve estar no cerne desse processo de diferenciação (ou de recombinação, se quiser estabelecer um paralelo com as recombinações
cromossômicas). Embora possa parecer exagerada através da minha apresentação necessariamente esquemática, essa reflexão de Stelarc é realmente seriíssima.
Poderíamos chegar agora a Gilbert Simondon que é, com André Leroi Gourhan e Bertrand Gille, que citamos, o terceiro grande teórico francês da evolução técnica.
Aliás, a França é um país notável pelo fato de que produz teorias da evolução técnica, no sentido em que se fala da evolução desde Darwin.
Simondon era filósofo...
Simondon era um grande filósofo, ainda pouco conhecido na França e pouco editado. Durante muito tempo, só se leu um de seus livros, "Du mode d'existence des objets techniques", uma obra importantíssima, mas que só é plenamente compreensível se se conhece os outros aspectos de seu pensamento. Gilbert Simondon é, na verdade, primeiro um teórico dos processos de individuação, quer se trate de cristalografia, de biologia ou de individuação psíquica, social ou técnica. Para Simondon, a matéria que funciona não é objeto da física, mas da mecanologia, uma ciência que estuda os processos evolutivos dos objetos técnicos industriais e cujo grande conceito é o processo de concretização, no sentido em que Simondon constata que não se entende a lógica evolutiva de um objeto técnico se não se apreenderem séries de objetos técnicos. O que é interessante não é o indivíduo técnico que são esta máquina ou aquele objeto, mas o processo de individuação que aparece por meio da série dos objetos técnicos. Ele faz certas análises dentre as quais as mais conhecidas e notáveis são, por um lado, aquela dos motores térmicos e, por outro, a dos tubos eletrônicos. No caso dos motores térmicos, ele mostra de maneira extremamente convincente que, da máquina a vapor até o motor à reação que se encontra hoje nos aviões supersônicos, assiste-se a um processo de concretização, que ele chama também de superdeterminação funcional. Isso significa que se você pega, por exemplo, a máquina a vapor, depois o motor Lenoir (o primeiro motor a explosão), depois o motor Diesel, e finalmente o motor à reação, você constata que as funções da máquina a vapor são separadas e que elas podem mesmo ser
desatreladas: na máquina a vapor, a combustão faz-se fora do pistão, em uma caldeira que faz o vapor aquecer e o injeta em um cilindro, o que põe em movimento um pistão, ao passo que com o motor Lenoir a combustão entra no pistão, sendo a explosão desencadeada pelo acendimento elétrico. O motor Lenoir
vai, aliás, apresentar defeitos ligados ao auto acendimento, o que o Diesel interpretaria como um sinal dado pela matéria para o estágio superior, mais "concreto", de funcionamento do objeto. Sem entrar em detalhes, isso quer dizer que quanto mais um objeto técnico evolui por essência (que Simondon
chama de sua concretização), mais ele fica indivisível e plurifuncional, logo, mais ele se aproxima da individualidade no sentido fortíssimo que essa palavra tem em biologia.
Se Bertrand Gille marcou bem a aceleração das transformações, ele raciocina ainda com um conceito de sistema técnico que se apóia na estabilidade. Ora, vivemos hoje um processo de transformação muito poderoso, que impede uma estabilização e não nos deixa mais o tempo de nos acostumarmos a um estado de equilíbrio simples. Isto posto, Gilbert Simondon tem um conceito para pensar isso, que é precisamente a individuação como equilíbrio metaestável.
Seja como for, é o tipo de equilíbrio que caracteriza os seres vivos, o equilíbrio estável sendo a morte...
Exatamente! Mas não deixa de ser verdade que, até agora, a técnica fora concebida como morte, justamente, e o vivo como o que animava a técnica, distante do morto. Esse morto era estável, porque estava morto, e éramos instáveis como seres vivos, e não acreditávamos que nossa "meta estabilidade" de seres vivos e "sociais" procedia da "metaestabilidade" de seres "mortos" (os objetos técnicos) aparentemente estáveis, mas "sistemicamente" e sistematicamente instáveis. Hoje, as coisas parecem muito mais complicadas do que se imaginava.
Há uma mistura crescente de vivo e do não vivo, do natural e do artificial...
Mistura que atinge hoje um ponto de ruptura, no sentido em que faz explodir a própria ontologia do vivo. Na verdade, se nunca chegamos realmente a dizer o que é o ser vivo, pensávamos que havia uma essência do vivo e que essa essência estava, como todas as essências, no céu das idéias eternas. Essa espécie de suposição ou pressuposição mais ou menos partilhada, inconsciente ou implicitamente, acaba de explodir, pela seguinte razão: há uns quinze anos, usam-se técnicas que permitem (há menos tempo ainda) praticar a cirurgia genética, as terapias gênicas etc., e intervir assim no ser vivo em nível molecular com uma precisão extraordinária. Essas técnicas, que a meu ver são desenvolvimentos do paradigma da biologia molecular, fazem, paradoxalmente, explodir as próprias bases dessa biologia molecular. Em “La logique du vivant”, livro de vulgarização de altíssima qualidade, que localiza o estado do neodarwinismo na época da biologia molecular triunfante, François Jacob diz que o grande cabedal da biologia molecular é a demonstração científica, em nível bioquímico, da verdade do darwinismo contra o lamarckismo. Isso significa que a lei do ser vivo em todo caso, do ser vivo sexuado é que o programa genético, como escreve Jacob, não recebe lições da experiência, ou, em outras palavras, que não é possível nenhuma comunicação entre a memória da espécie no sentido do germe, e a memória do indivíduo no nível do soma, isto é, a memória nervosa. Não há, portanto, hereditariedade dos caracteres adquiridos, e o lamarckismo é falso. Essa é, portanto, uma magnífica demonstração racional. O problema hoje, para nós, é que a consideração da biologia molecular como tecnologia e não mais como ciência tem como resultado o uso de certas técnicas (como as enzimas de restrição) que suspende essa lei fundamental do ser vivo que Jacob enunciava.
Ela introduz, de certo modo, um lamarckismo de segundo grau?
É exatamente isso, e quando um geneticista tem acesso à memória da espécie, isto é, ao genoma, e pode modificar sua estrutura, é evidente que a memória nervosa desse geneticista e, por meio dele, da sociedade na qual ele vive, entra na memória da espécie e modifica, transgride totalmente o interdito que era a própria base da diferenciação vital, a saber: a incomunicabilidade entre as memórias nervosa e genética. Como todo mundo sabe hoje, isso traz o problema de um eugenismo racional de fato, mas diz respeito também à técnica em geral, além da biologia. Isso significa, mais amplamente que já não há essência, pois já não se pode dizer o
que é a essência da vida ou a essência do homem, considerando-se que se pode imaginar, hoje, uma transformação do homem em seus caracteres biológicos.
Pode se apenas dizer o que foi uma essência dessas?
Sim, e, nesse sentido, resta algo que nos permite sermos herdeiros de Aristóteles e de seu to ti en einai (traduzível por "o que isso foi"). Por outro lado, quando digo: "Já não há essência aqui!", entenda-se bem, não há essência no sentido em que se chamaria de "essência" aquilo que constitui a estabilidade eterna do que é... O que nos leva a outras referências filosóficas, como Nietzsche, pois o vasto problema assim colocado é a relação do ser e do devir. Essa questão, que permaneceu filosófica durante muito tempo, vai torrar se o questionamento diário das sociedades desenvolvidas nos próximos anos, como comprovam os grandes debates atuais sobre o futuro, quer se trate do planeta no plano ecológico, do ser vivo (animal, vegetal ou humano) ou da relação do próprio corpo com as próteses, questão cuja importância será crucial nos próximos vinte anos, com as nanotecnologias e todas as futuras próteses corporais interiorizáveis.
Pode-se, então, perguntar: "Até que ponto posso aceitar próteses sem deixar de ser eu mesmo?”.
Isso mesmo, pois podemos cada vez mais protetizar o corpo, a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos, isto é, de ter vários corpos simultaneamente, o que traz o imenso problema da identidade. Um fenomenólogo como Husserl dizia que a um ego corresponde um corpo próprio e um só e que esta é a própria condição da unidade do ego. Eis, portanto, problemas terríveis que se colocam para nós, porém, esses problemas, que são filosóficos e provêm da metafísica mais refinada e mais bela, mas também mais difícil, vão colocar-se para todo mundo nos próximos anos. Vivemos ai um fenômeno de considerável ruptura cultural e a questão é saber se a comunidade dos homens é hoje capaz de enfrentar tal ruptura.
Fragmento da entrevista retirada do livro:
SCHEPS, R., L’empire des techniques : une série
d’émission diffusées sur France-Culture dans le cadre des « perspectives
scientifiques ». Paris : Seuil, 1994.
Contribuição da pos-graduanda Raquel Cardoso de Castro
Copyright ©
por Pos-Graduacao ECO-UFRJ Todos os direitos reservados.
Publicado em: 2004-04-17 (1199 lido)


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