sábado, outubro 21, 2006

Aula nº 3 - 20 de Outubro de 2006 “O caso Bolet - uma PME familiar em modernização”.

Universidade do Minho
Mestrado de Sociologia Sociologia das Organizações
Aula nº 3 - 20 de Outubro de 2006

“O caso Bolet - uma PME familiar em modernização”.

José Pinheiro Neves


CASO PRÁTICO nº 1. O caso Bolet
uma PME familiar em modernização


O Sr. Bolet, P-DG da Sociedade Charicoup, está preocupado com as tensões que aparecem entre os contramestres e os quadros, que traduzem sem dúvida uma mutação da sociedade.
A Sociedade Charicoup é uma empresa familiar. O Sr. Bolet é o seu fundador; ele dirige-a juntamente com dois dos seus filhos. O João encarrega-se do desenvolvimento comercial e o André dirige a produção. Este último é engenheiro; entrou na empresa há cinco anos e foi ele que definiu e pôs em prática a estrutura actual (cf. organigrama).



A empresa produz material para serração: as vias de circulação que trazem os toros de madeira sob as serras e apresenta-as segundo um programa de corte. Um material resistente, relativamente preciso e automatizado; um material sujeito a tratamentos duros, utilizado pelos operários da serração que não possuem o reflexo mecanicista.

n Ela conheceu uma expansão rápida. Fundada há uma quinzena de anos, passou de cerca de 20 a 200 pessoas.
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n A oficina mecânica prodruz peças mecânicas, trata-se da pequena secção de objectos de chapa batida. Duas oficinas de montagem montam as máquinas que, após a experimentação, serão desmontadas em subgrupos para a expedição. Nos clientes a montagem será efectuada pelo serviço Montagem exterior. Este último faz também as reparações e a manutenção. A empresa procura estabelecer com os seus clientes contratos de manutenção para atenuar os efeitos das utilizações um pouco "selvagens" do material.
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n A célula Estudo responde às solicitações dos clientes transmitidas pelo serviço comercial. Todos os produtos são concebidos segundo um mesmo princípio; mas devem ser adaptados aos problemas particulares dos clientes. Esta célula foi criada pelo André. É composta por jovens engenheiros e técnicos.
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n Os contramestres saíram quase todos do grupo fundador da fábrica: "os primeiros companheiros", o "ponto de partida"... Escapam desta norma: o contra-mestre electricista, o contra-mestre de montagem exterior e um chefe da equipa de mecânica. O chefe da oficina também saiu deste grupo: foi promovido a quadro quando da chegada dos engenheiros da célula Estudo.
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n O director administrativo exerce a sua função há dois anos. Substituiu o primeiro contabilista da sociedade. Pôs em funcionamento um sistema de contabilidade industrial há um ano.

n O pessoal operário comporta três níveis de antiguidade: mais de 10 anos, de 4 a 5 anos, de 2 a 3 anos. A empresa não conhece dificuldades de recrutamento. Está instalada a alguns quilómetros de uma vila de 20 000 habitantes que têm um colégio de ensino técnico e um centro de formação profissional acelerado.
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n As entrevistas feitas ao longo de um inquérito prévio deram a seguinte imagem da empresa:
n - segundo os engenheiros e os técnicos, os contramestres estão ultrapassados: os prazos não são mais cumpridos. "É impossível ultrapassar um certo nivel de performance." "Era preciso montar uma célula Métodos e forçar o chefe da oficina a planificar o controle sobre os prazos." "A matriz, aqui, é sagrada!"
n - O chefe da oficina diz ter muitos problemas com os stocks, as expedições devido às solicitações das repartições. Ele fala dos "feitos" dos filhos Bolet, num sentido pejorativo.
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n - Ouvindo os contramestres , os do "escritórios" (engenheiros) intervem para desorganizar; é preciso, muitas vezes, parar o trabalho para fazer ensaios ou passar um mais importante. Todas as chamadas de atenção feitas pelos contramestres não são mais entendidas. "Era preciso que o Pai Bolet passasse mais vezes pelas oficinas" torna-se um leitmotiv.
n - A expansão coloca um problema de mão-de-obra. Os velhos companheiros queixam-se: "Contactamos com jovens que nunca puseram os pés numa oficina: é preciso ensinar-lhes tudo".
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n O director comercial chegou de uma viagem à Suécia onde conheceu um novo material de produção. Ele coloca a questão da introdução desta nova máquina na empresa:
n - este material, pouco conhecido por enquanto, pode ser adoptado pelos concorrentes;
n - trata-se de uma máquina cara implicando, portanto, um investimento importante;
n - ela é muito mais eficaz que o material utilizado actualmente na empresa (melhor qualidade e quantidade claramente superior);
n - a sua introdução obrigará alterar a produção (nomeadamente a preparação e a planificação, trabalho no posto, etc.).



n QUESTÕES
n Suponhamos que o director comercial, João Bolet, esteja convencido da necessidade de adquirir esta nova máquina, de a introduzir na empresa e de o fazer de uma maneira rápida.
n - Na sua opinião, como é que ele vai proceder? Descreva concretamente as démarches que ele vai empreender.
n Imagine-se a sua descida do avião chegando da Suécia.
n - O que é que ele irá fazer?
n - Quem procurará ele primeiro?
n - E quem serão os seguintes?

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n In: BERNOUX Philippe (1989), A Sociologia das Organizações, Porto, Colecção Diagonal, Rés