sábado, janeiro 28, 2006

Conceitos principais da Teoria do Actor-Rede numa tese de mestrado em Engenharia de Produção

A Teoria do Ator-Rede

Para tentar entender como os objetos, mais do que simbolizarem, ‘materializam’ uma determinada ordem social, mergulharemos no livro de Latour, onde ele expõe algumas idéias sobre a construção do fato científico, e sobre uma possível metodologia para o estudo desta construção. Latour diz que o fato científico é ‘construído’ e que, para entendê-lo, é necessário entender como se deu esta construção, quais os personagens participantes, as relações entre eles, penetrar na ciência do exterior para o interior, indo cada vez mais fundo até conseguir explicar ao observador como isso tudo funciona.

A Teoria do Ator-Rede, nas palavras de John Law (1992), preocupa-se em como atores e organizações mobilizam, justapõem e mantém unidas as partes de que se compõem; em como, em alguns momentos, eles são capazes de evitar que essas partes sigam suas próprias tendências; e em como eles controlam os resultados de forma a ocultar as partes heterogêneas e transformá-las em algo que se assemelha a uma coisa única e compacta.

Apesar dos defensores da ANT (John Law, Michel Callon, e outros) e Bruno Latour divergirem em alguns aspectos, a proximidade do discurso das duas metodologias é evidente, e utilizaremos a seguir conceitos extraídos de ambas as correntes.

Conceitos

O conceito de ator é comum às duas metodologias. Latour diz que tanto as pessoas, que podem falar, quanto os objetos inanimados, que possuem representantes, qualquer um deles pode ser chamado de ator.

A rede é outro dos conceitos básicos para entender a metodologia. Segundo Latour, “a palavra rede indica que os recursos estão concentrados em poucos locais – os nós e os pontos – os quais estão conectados a outros – os vínculos e a rede: essas conexões transformam recursos dispersos em uma rede que parece estender-se a todos os lugares” (1986 p.180). Law reforça que as redes podem ser compostas tanto de pessoas quanto de máquinas, animais, textos, dinheiro, qualquer material que se possa lembrar. Segundo Law, uma rede é mais forte do que suas partes sozinhas, e serve para ‘homogeneizar’ um conjunto de materiais heterogêneos. Ele exemplifica lembrando que podemos falar do ‘Governo Britânico’, e com isso caracterizar todo o conjunto de partes que esse termo pode envolver.

A tradução, por Latour, é um conceito que serve para solucionar uma contradição: aquele que deseja construir um fato precisa envolver outros a participar da construção do fato e, ao mesmo tempo, precisa controlar seus comportamentos de modo a fazer com que suas ações sejam previsíveis. Ele chama de ‘tradução’ à interpretação dada pelos construtores de fatos aos seus interesses e àqueles das pessoas que ele envolve. Ele explica que utiliza a palavra tradução (no inglês translation) não somente por seu sentido lingüístico (relacionar versões de uma linguagem para outra), mas também por seu sentido geométrico (mover de um lugar para outro) (1986, p.117). Neste sentido, traduzir significaria não somente oferecer novas interpretações dos interesses alheios, mas ‘canalizar’ as pessoas em direções diferentes.

O conceito de caixa-preta é um ponto importante no discurso de Latour. Caixa-preta é um termo utilizado em sistemas, para designar uma parte de uma máquina ou um conjunto de comandos complexos demais. Ele explica que um fato científico é, desde sua origem, resultado de inúmeras associações, disputas, controvérsias que aos poucos vão convergindo até tornarem-se algo que pode ser referenciado sem discussão, ou seja, uma caixa-preta. É um recurso que pode ser utilizado a qualquer momento, como a tomada na parede onde ligamos os aparelhos. Uma vez fechada, a caixa-preta permanece assim até que um evento qualquer faça necessário reabri-la. A usina hidrelétrica, os cabos, a empresa fornecedora de energia permanecem esquecidos, até que, por algum motivo, falta eletricidade. Neste momento retomamos a cadeia de conexões que está por trás daquela tomada, problematizando toda esta cadeia.

Outro conceito importante é o dos aparelhos técnicos de medida. Latour os coloca como ‘instrumento’, ou seja, um equipamento capaz de proporcionar uma leitura visual que será usada mais tarde como um argumento poderoso (1987, p.68). Um instrumento pode ser desde um singelo termômetro a um acelerador de partículas gigantesco; seu tamanho, natureza ou custo não importa. “O ato de definir um novo objeto pelas respostas que ele traz em uma janela de um instrumento dá aos cientistas e engenheiros sua fonte de poder" (LATOUR, 1987 p.90). O cientista torna-se, então, um ‘porta-voz’, aquele que fala por algo. Existe um conjunto de inscrições visuais produzidas pelos instrumentos, e, em correspondência, um comentário do cientista, que interpreta estas inscrições.

Latour utiliza o termo tecnociência em substituição ao tradicional ‘ciência e tecnologia’. Tecnociência descreve todos os elementos amarrados à matéria científica, por mais inesperados ou estranhos que possam parecer (LATOUR, 1987 p.174). Ele defende esta escolha afirmando que as fronteiras da ciência não estão colocadas na porta do laboratório, onde o cientista solitário faz suas pesquisas. Essas fronteiras vão muito além, nos instrumentos produzidos especialmente para um projeto, nos financiamentos negociados com governos e empresas privadas, nos colegas cientistas que dão seus pareceres, nas revistas que publicam seus artigos, numa lista interminável de agentes envolvidos na construção da ciência.
[...]

Latour nos propõe em seu livro uma metodologia para estudo da construção do fato científico.

Esta metodologia está ancorada em três idéias básicas:
a) um fato científico é algo construído;
b) esta construção se dá através das ações de uma rede de atores humanos e não-humanos;
c) esta construção cristaliza-se em uma ‘coisa’, um ‘artefato’ cuja origem não está mais em questão.

a) um fato científico é algo construído

“O ato essencial da arte determina o processo pelo qual a forma se tornará obra.”BUBER, 1977 p.16

Latour coloca, como seu primeiro princípio, que as qualidades dos fatos e máquinas "são a conseqüência, e não a causa, de uma ação coletiva" (1987 p. 259). Ele acredita que, para que uma caixa-preta seja fechada, ou seja, para que um fato científico seja aceito sem discussão, é necessário que o cientista vença todas as controvérsias que possam ser levantadas por outros cientistas.
A controvérsia é um ponto importante na construção do fato científico e é através dela que a força ou fraqueza de um argumento é testada. Ao propor um fato científico, o cientista expõe seus argumentos à sociedade, possibilitando que outros cientistas contra-argumentem. Para que seus argumentos saiam vencedores, ele precisa cercar-se de aliados poderosos (instrumentos, laboratórios, literatura, referências) de modo que torne-se cada vez mais difícil argumentar contra suas proposições. Geralmente seus ‘adversários’ também buscam fortes aliados, e quanto maior a rede de associações utilizada por ambas as partes, mais forte torna-se o argumento defendido. Sendo assim, Latour nos diz que a decisão de uma controvérsia é a causa da representação da natureza e da estabilidade da sociedade; portanto não devemos tentar usá-las para explicar como e porquê uma controvérsia foi decidida.
Por este motivo, a proposta de metodologia de estudo de Latour está concentrada não na ciência pronta, no fato já estabelecido, e sim na construção desta tecnociência:
“Entraremos nos fatos e nas máquinas enquanto eles estão em construção: não levaremos conosco preconceitos sobre o que constitui o conhecimento; iremos olhar o fechamento das caixas pretas e ser cuidadosos ao distinguir entre duas explicações contraditórias deste fechamento: uma quando já está terminada, a outra quando está sendo construída.” (LATOUR 1987 p.13)

b) esta construção se dá através de uma rede de atores humanos e não-humanos

“No começo é a relação.”BUBER, 1977 p.8

Latour acredita que todo fato científico é construído a partir de uma rede de associações, que transforma recursos dispersos em uma teia que parece estender-se por todo lugar. Conforme mencionado no item anterior, são os aliados que garantem a decisão de uma controvérsia. Ele recomenda que "devemos estar tão incertos quanto aos diferentes atores que perseguimos como quanto à matéria de que a tecnociência é feita; sempre que uma divisão dentro/fora é construída, devemos estudar os dois lados simultaneamente e fazer a lista, mesmo que longa e heterogênea, daqueles que fazem o trabalho" (1987 p. 258).
Segundo Latour, não existe aquilo que ele chama de "o Grande Divisor": nós/eles, ciência/sociedade. Como se, de um lado, estivessem as culturas, que acreditam em ‘coisas’, e de outro, a Cultura, que sabe ‘coisas’ (1987 p. 211). Essa divisão seria apenas em termos da escala na qual ocorre o enredamento das pessoas.
“A construção de fatos e máquinas é um processo coletivo, e o destino daquilo que dizemos e fazemos está nas mãos dos usuários posteriores.” (LATOUR, 1987 p. 29)

c) o resultado desta construção é uma ‘coisa’, cuja origem não está mais em questão

“A transformação em coisa é, entretanto, um produto posterior, provindo da dissociação das experiências primordiais, da separação dos parceiros vinculados – fenômeno semelhante ao surgimento do EU.”BUBER, 1977 p.31
Latour afirma que, após estabelecida uma rede de associações estável e decididas as controvérsias, as pesquisas científicas transformam-se em ‘coisas’:
“Novos objetos se tornam coisas:[...] coisas isoladas das condições de laboratório que as moldaram, coisas com um nome que agora parecem independentes de testes nos quais eles provaram sua força.” (LATOUR, 1987 p. 91)
Latour cita o caso da proteína, hoje considerada uma ‘coisa’, e que na década de 1920 era nada mais que a ação de diferenciar o conteúdo de células por uma centrífuga. Uma vez fechada a caixa-preta, o processo de construção do fato científico é posto de lado, e a ‘coisa’ permanece inquestionável até que um novo evento surja para colocá-la novamente em discussão:
“[...] o natural é em geral o ‘inquestionavelmente auto-evidente’, e este último é sempre aquilo que se tornou ‘inquestionavelmente auto-evidente’, mas cujo tornar-se ‘inquestionavelmente auto-evidente’ permanece oculto para nossa consciência.” (GEHLEN apud BARTHOLO, 1986 p. 18)


O método de Latour


Uma vez entendidos os conceitos básicos da ANT e da abordagem sociotécnica, podemos apresentar o método sugerido por Latour para o estudo da construção do fato científico. Latour estabelece sete regras para a utilização de seu método, que são citadas em seu livro Sience in Action:

“Regra 1. Estudaremos a ciência em ação, e não a ciência pronta ou a tecnologia; para isso, chegaremos antes que os fatos e máquinas sejam transformados em caixas-pretas, ou seguiremos as controvérsias capazes de reabri-las.

Regra 2. Para determinar a objetividade ou subjetividade de uma afirmação, a eficiência ou perfeição de um mecanismo, não procuraremos por suas qualidades intrínsecas, mas por todas as transformações por que passaram nas mãos de outros.

Regra 3. Como a decisão de uma controvérsia é a causa da representação da Natureza, e não sua conseqüência, não podemos usar esta conseqüência, a Natureza, para explicar como e porquê uma controvérsia foi decidida.

Regra 4. Como a decisão de uma controvérsia é a causa da estabilidade da Sociedade, e não sua conseqüência, não podemos usar a Sociedade para explicar como e porquê uma controvérsia foi decidida. Devemos considerar simetricamente os esforços para arrolar recursos humanos e não-humanos.

Regra 5. Devemos ser tão indecisos quanto aos vários atores que seguiremos tanto quanto àquilo do que a tecnociência é feita; todas as vezes que uma divisão interna/externa é construída, devemos estudar os dois lados simultaneamente e fazer a lista, sem se importar o quão longa e heterogênea possa ser, daqueles que fazem o trabalho.

Regra 6. Confrontada com a acusação de irracionalidade, não olharemos para qual regra da lógica foi quebrada, nem para qual estrutura da sociedade pode explicar essa distorção, mas para o ângulo e a direção do deslocamento do observador, e para a extensão da rede que está sendo construída.
Regra 7. Antes de atribuir qualquer qualidade especial à mente ou ao método das pessoas, vamos examinar primeiro os muitos caminhos pelos quais as inscrições são reunidas, combinadas, amarradas e devolvidas. Uma vez que as redes foram estudadas, apenas se existir algo inexplicável poderemos começar a falar de fatores cognitivos” (1986 p. 258).

Além das regras, Latour estabelece seis princípios, que resumem suas idéias e auxiliam na busca por evidências:

“Primeiro princípio. O destino dos fatos e máquinas está nas mãos de seus usuários finais; suas qualidades são, desse modo, uma conseqüência, e não uma causa, de uma ação coletiva.

Segundo princípio. Cientistas e engenheiros falam em nome de novos aliados que eles moldaram e arrolaram; representantes entre outros representantes, eles agregam esses recursos imprevistos para inclinar o equilíbrio de forças a seu favor.

Terceiro princípio. Nunca somos confrontados com ciência, tecnologia e sociedade, mas com uma gama de associações fortes e fracas; desse modo, entender o que são os fatos e máquinas é uma tarefa semelhante a entender quem são as pessoas.

Quarto princípio. Quanto mais a ciência e a tecnologia têm conteúdo esotérico, mais elas se estendem para fora; assim, ‘ciência e tecnologia’ são apenas um subitem da tecnociência.

Quinto princípio. Irracionalidade é sempre uma acusação feita por alguém, que constrói uma rede, a outro alguém que se coloca em seu caminho; desta forma, não há a Grande Divisão entre os pensamentos, mas apenas redes curtas e extensas; fatos resistentes não são a regra mas a exceção, pois eles são necessários apenas em poucas ocasiões para deslocar outros em grande escala fora de seus caminhos habituais.

Sexto princípio. A história da tecnociência é, em grande parte, a história dos recursos dispersos pelas redes para acelerar a mobilidade, lealdade, combinação e coesão de ‘pegadas’, que fazem a ação à distância possível” (1986 p. 259).

Bibliografia:
LATOUR, B., Science in Action, Cambridge, Harvard University Press, 1987.
LAW, J., "Notes on the Theory of the Actor-Network: Ordering, Strategy and Heterogeneity", in Systems practice, vol. 5, nº 4, 1992.

in

Academia e Pirataria. O livro na universidade
Ana Claudia da Silva Paiva Ribeiro

TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO.

RIO DE JANEIRO, BRASIL
MARÇO DE 2002

http://www.crie.coppe.ufrj.br/home/capacitacao/teses_mestrado/ana-claudia.doc

Ver também:

http://groups.yahoo.com/group/actor-network-theory/