sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O processo de inovação para as Ciências Sociais I - inovação como processo social

Jornal da Ciência

e-mail

2641, de 05 de Novembro de 2004.

O processo de inovação para as Ciências Sociais I - inovação como processo social


artigo de Carlos José Saldanha Machado

Quais as relações que existem entre os conteúdos técnicos e as formas de vida social?


Carlos José Saldanha Machado (saldanha@fiocruz.br) é antropólogo, pesquisador do Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e membro do Comitê Local de Organização do 4o Congresso Mundial de Centros de Ciência – abril 2005.

O artigo está dividido em três partes, que serão publicadas até 9/11:

Ao longo das ultimas décadas o processo de inovação passou a ocupar o primeiro plano da cena pública posto que as ciências e as tecnologias assumiram o lugar de motor da história e da economia das sociedades ocidentais contemporâneas.

Diante dessa dinâmica do presente, convém se perguntar como as ciências sociais têm explicado e interpretado tal processo e dado respostas para questões do tipo: como as tecnologias mediatizam nossas relações com o real?

De que maneira elas se inscrevem nas relações que os homens mantêm entre si e seu meio ambiente? Quais as relações que existem entre os conteúdos técnicos e as formas de vida social?

Na busca de respostas para aquelas questões constatamos que um certo número de autores – que pertencem a disciplinas e horizontes históricos variadas – já as abordaram sob diversas modalidades.

Trata-se, aqui, de apresentar as que já foram dadas por dois grupos de autores cujas similitudes entre seus trabalhos nos parece bastante forte para que possamos, para além das barreiras disciplinares e de diferenças de vocabulário, tentar uma apresentação conjunta de seus modelos.

Essas similitudes não são fruto do acaso: uns conhecem mais ou menos o que fazem os outros. A busca de uma solução para sair da alternativa binária entre ‘demand/supply’ ou ‘social determinism/technical determinism’ orienta suas reflexões em direções convergentes.

Enfim, a Nova Sociologia das Ciências que emergiu no final dos anos 70 do século passado se constituiu numa fonte de inspiração comum para os trabalhos de sua grande maioria, mesmo se os autores considerados por eles não sejam bem os mesmos.

Trata-se dos economistas G. DOSI [Technological paradigms and technological trajectories. A suggested interpretation of the determinants and directions of technical change], G. DOSI, D. J. TEECE, e S. WINTER [Toward a Theory of Corporate Coherence: Preliminary Remarks], G. DOSI, K. PAVITT e L. SOETE [The Economics of Technical Change and International Trade], G. DOSI, C. FREEMAN, R. NELSON e & L. SOETE [Technical Change and Economic Theory], R. NELSON [National Systems of Innovation], R. NELSON e S. WINTER [An Evolutionary Theory of Economic Change] e dos sociólogos Wiebe BIJKER e John LAW [Shaping Technology/Building Society: Studies in Sociotechnical Change], Wiebe BIJKER [The Social Construction of Bakelite : Toward a Theory of Invention] e Wiebe BIJKER e Trevor PINCH [The Social Construction of Facts and Artifacts : Or How the Sociology of Science and the Sociology of Technology Might Benefit Each Other].

Para esses dois grupos de autores a tecnologia é definida como um conjunto complexo que compreende e associa dispositivos técnicos, saberes e saber-fazer, uma certa apreensão do estado da arte e dos problemas que permanecem em aberto, uma representação dos métodos disponíveis ou pertinentes para resolver esses problemas, um certo número de idéias sobre as lições a serem tiradas das experiências passadas e sobre o futuro possível ou provável das tecnologias.

Assim, a tecnologia se apresenta, essencialmente, como saber que pode ser incorporado em artefatos, ou desincorporado em relação aos artefatos, mas incorporado na prática cotidiana de todos os atores envolvidos com o desenvolvimento tecnológico.

Esse saber pode ser próprio a um grupo de atores, uma empresa ou um setor industrial, ou ter um alcance mais geral, onde ele toma a forma, segundo os economistas, de ‘paradígmas tecnológicos’.

Os atores implicados, freqüentemente formados de coletivos, são, nesses dois modelos, bastante diversos.

Além das empresas, vemos intervir engenheiros, pesquisadores, políticos, organismos públicos em todos os domínios (pesquisa, industria, mas também educação, saúde, etc.), ‘usuários’ primários (companhias aéreas, no caso dos aviões, por exemplo) e secundários (passageiros dessas companhias aéreas).

Mais ainda, cada ator tem sua própria definição do que é ‘vantajoso’, ou, dito de outro modo, dos objetivos gerais que ele se fixa e que podem ser o lucro econômico para uma empresa privada, mas também uma melhor qualidade de tratamento para o setor médico ou uma melhor capacidade de defesa para os organizações militares.

Os sociólogos insistem sobre o fato de que a lista dos atores envolvidos, o que eles chamam os ‘relevant social groups’, é específico de cada inovação e assume um caráter estratégico no desenvolvimento das inovações: são eles que definem os problemas aos quais a inovação deve trazer uma resposta.

Para os economistas, as estratégias de P&D que dão nascimento às inovações são o resultado de um processo heurístico, próprio à cada empresa, que deve ser concebido como um conjunto de procedimentos, permitindo definir objetivos e métodos para atingi-los.

A heurística incorpora não somente saberes propriamente tecnológicos mas também modelos de organização interna, métodos de aprendizado e da consideração da demanda, etc.

Entre as diferentes estratégias que emergem desse processo heurístico, algumas têm a particularidade de aparecerem como desejável ou rentável sob uma ampla gama de condições do lado da demanda: elas representam ‘trajetórias naturais’ e re-grupam, por exemplo, as estratégias que visam a exploração econômica de escala, a mecanização das operações de produção ou a incorporação de dispositivos eletrônicos.

Num dado momento, nos encontramos face á um paradigma que está solidamente estabelecido.

Nesse caso, efetivamente, as direções para as quais são orientados os esforços de desenvolvimento são fortemente pré-determinadas pelas concepções que os atores têm a priori dos problemas a serem resolvidos e os métodos que devem ser utilizados para este fim.

Em compensação, a instauração de um novo paradigma supõe um questionamento ao mesmo tempo da tecnologia - se esta estiver situada nos domínios onde os saberes são ainda incertos - e do mercado - trata-se então de construir, quase ex nihilo, uma demanda para produtos que não têm equivalentes no passado.

Contudo, nos modelos dos economistas a progressiva determinação das trajetórias tecnológicas se efetua por um processo de seleção.

O meio ambiente seletivo compreende todos os atores exteriores à organização (empresarial ou de outro tipo) encarregados do desenvolvimento da inovação.

Entre todas as possibilidades consideradas para os diferentes estágios de desenvolvimento, os atores vão selecionar aquelas que parecem assegurar-lhes o melhor lucro, qualquer que seja, de resto, a definição que eles adotem desse lucro.

Nessa perspectiva, o mercado é somente um dos meios ambientes seletivos possíveis, aquele pelo qual até então os economistas, sobretudo, se interessavam.

A seleção é o resultado de dois movimentos combinados, um que afeta a determinação dos mecanismos de geração das mutações - a instauração de um paradigma pode ser descrito nesses termos - e o outro que opera a seleção propriamente dita entre os diferentes ‘mutantes’ - aqui o mercado é o principal agente.

De maneira análoga, os mecanismos de variação-seleção estão no coração do modelo dos sociólogos. Cada variante pode ser descrita pelo conjunto dos problemas colocados – aos quais ela pretende dar uma resposta – e os ‘relevant social groups’ que os colocam, uns sendo definidos pelos outros.

Mas cada ator é suscetível de ter uma interpretação particular dos problemas e da adequação das soluções que são propostas, o que cria situações de controvérsias.

A seleção operada entre as variantes e a estabilização progressiva de certas soluções são interpretadas, nesse esquema, como a convergência dessas diferentes interpretações.

Ao final do processo, cada ‘relevant social group’ considera que os problemas estão resolvidos, esse consenso sendo obtido ora porque alguns atores têm a capacidade de impor um encerramento retórico da controvérsia – eles ‘presumem’ que os problemas estejam resolvidos – ora porque no transcorrer das negociações que acompanham a inovação, os problemas foram coletivamente redefinidos.

O que acaba de ser enunciado constitui uma diferença essencial entre esses modelos e alguns daqueles que serão abordar no próximo artigo.

Extraído do site:

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=22937