Os vários tipos de entrevista. A importância das atitudes do entrevistador durante a entrevista.
Entrevistas
A observação dirige-se para a descrição e compreensão do comportamento, tal como este
ocorre naturalmente. Mas não nos dá a informação sobre o comportamento passado ou íntimo.
Para obtê-la foram criados o questionário e a entrevista, em que se dá grande peso à descrição verbal da pessoa para a obtenção de informação quanto aos estímulos ou experiências a que está exposta e para o conhecimento do seu comportamento.
O questionário e a entrevista só podem obter o material que a pessoa possa relatar e esteja disposta a fazê-lo.
A entrevista consiste no desenvolvimento de precisão, focalização, fidedignidade e validade de um certo acto social comum à conversação.
A entrevista dá-nos uma situação assimétrica de papéis, isto é, ao entrevistador cabe a realização das perguntas; ao entrevistado cabe a resposta às mesmas. Numa entrevista há que respeitar os papéis distribuídos, isto é, há que ter em consideração que quem é o elemento mais importante é o entrevistado, é dele que se obtém a informação.
A entrevista enquanto técnica de recolha de dados é utilizada:
• na análise do sentido que os indivíduos dão às suas práticas e aos
acontecimentos com os quais se vêem confrontados: sistema de valores, referências normativas,
leituras que fazem das suas próprias experiências;
• na análise de um problema específico;
• na reconstituição de um processo de acção, de experiências ou de
acontecimentos do passado.
1- Classificação das entrevistas
1.1) Entrevista Formal / Entrevista Informal
- A entrevista formal é aquela em que há uma preparação prévia (ex.: marcação adiantada de uma entrevista com um membro do governo). A entrevista informal é aquela cuja a forma é determinada por cada entrevistado (ex.: entrevista a
um jogador famoso, no final da partida). Usualmente a entrevista informal é utilizada em estudos exploratórios.
Podem-se distinguir vários tipos de entrevistas, baseando-se nos seguintes critérios:
1º Grau de liberdade permitida pela técnica, tanto para o entrevistador, quanto para o entrevistado, em relação à formulação e respostas às perguntas.
2º Grau de profundidade que se deseja nas informações obtidas. Começando pelas
informações mais acessíveis (factos, comportamentos) até chegar a níveis mais psicológicos e profundos (opiniões, atitudes, etc.) no subconsciente dos indivíduos.
A partir desses critérios, pode-se estabelecer dois pólos de entrevistas: o primeiro compreende aquelas que permitem um máximo de liberdade e aprofundamento; o segundo, aquelas que permitem um mínimo de liberdade e de profundidade. Ao primeiro extremo, correspondem as entrevistas não estruturadas, não directivas ou não dirigidas; ao segundo, as entrevistas estruturadas, dirigidas ou dirigidas. É claro que se podem referir algumas variantes.
Deste modo:
1.2) Entrevista Estruturada (directiva, ou dirigida)
Desenvolve-se a partir de perguntas precisas, pré-formuladas e com uma ordem pré-
estabelecida (que podem assentar até num questionário). O entrevistador dirige o processo evitando qualquer «desvio» do entrevistado. É fácil descobrir que esse tipo de técnica constrange a iniciativa do entrevistado.
1.3) Entrevista não estruturada (não directiva, ou não dirigida)
Permite ao entrevistado desenvolver as suas opiniões e informações de maneira que ele estimar convenientemente. O entrevistador desempenha apenas funções de orientação e estimulação. Esse tipo de técnica apenas indica ao entrevistador a natureza geral do problema de pesquisa e os aspectos que serão tratados no processo da entrevista. O entrevistador não formula questões; apenas sugere um tema geral em estudo e leva o entrevistado a um processo de reflexão sobre o assunto.
Ex: O Sr/Sra deseja falar das suas experiências enquanto turista em Portugal?
Ex: Gostaria que falássemos sobre os partidos políticos.
1.4) Variantes:
1.4.1) Entrevista Semi-Directiva ou Semi-Dirigida
É semidirectiva no sentido em que não é nem inteiramente aberta, nem encaminhada por um grande número de perguntas precisas. O investigador dispõe de um conjunto de perguntas-guia, relativamente abertas, a propósito das quais é fundamental receber uma informação da parte do entrevistado. Mas não vai colocar necessariamente todas as perguntas na ordem em que as anotou e sob a formulação prevista.
Este tipo de entrevista dá uma certa liberdade de resposta; portanto, "deixará andar" o entrevistado para que este possa falar abertamente, com as palavras que desejar e a ordem que lhe apetecer.
O único papel do entrevistador será o de se esforçar por reencaminhar a entrevista para os objectivos, cada vez que o entrevistado deles se afastar e por colocar as perguntas às quais o entrevistado não chega por si próprio, no momento mais apropriado e da forma mais natural possível.
1.4.2) Entrevista Centrada ou Focalizada
A principal função do entrevistador é focalizar a atenção em determinada experiência e os seus efeitos sobre aqueles que a ela assistiram ou nela participaram. O entrevistador sabe antecipadamente quais os tópicos ou quais os aspectos de uma questão que deseja abranger.
Ao longo da entrevista abordará este tópicos, mas de modo livremente escolhido no momento de acordo com o desenrolar da conversa.
A entrevista focalizada tem sido usada na criação de hipóteses que procuram verificar quais são os aspectos de uma experiência específica que provocam mudanças na atitude dos que foram expostos a tal experiência.
1.4.3) Entrevista Clínica
Tem por objectivo o diagnóstico terapêutico. É uma entrevista qualitativa, aprofundada, longa, centrada no entrevistado, o qual tem uma grande liberdade nas suas respostas. São repetidas com frequência e são usadas em psicanálise. Neste género de entrevista, o entrevistador interessa-se por motivações e sentimentos amplos e subjacentes, ou pelo transcorrer das experiências de vida do indivíduo.
A forma para provocar a informação é escolhido pelo entrevistador. É uma entrevista de "história de vida/pessoal".
1.5) Quanto ao conteúdo da informação
1.5.1) Entrevista de opinião - A pessoa diz o que pensa ou faz.
1.5.2) Entrevista documental - A pessoa limita-se a dizer o que sabe e o que conhece sobre o tema em questão.
1.6) Quanto à finalidade da informação
1.6.1) Pessoas comuns
1.6.2) Informadores qualificados - Isto é, a informação dada pelo entrevistado não implica que este tenha um grau académico superior. É preciso é que o informador saiba do que está a falar.
Ex.: Pode até ser a peixeira do mercado.
1.7) Quanto ao modo como se processa a informação
1.7.1) Instantaneamente - As entrevistas não se repetem.
1.7.2) Repetidas - Por exemplo, num estudo exploratório, obtém-se todo o tipo de informações. Contudo, quando queremos pormenorizar, temos algumas dúvidas. Assim, temos de repetir a entrevista.
Outro exemplo: nas sondagens de opinião, na altura das eleições, pergunta-se mais do que uma vez qual a preferência do candidato. Inclusive as perguntas são normalmente feitas:
- No início da campanha.
- No meio da campanha.
- Nas últimas 24h antes do fecho da campanha.
1.8) As entrevistas podem ser realizadas
1.8.1) Individualmente - Entrevista individual.
1.8.2) Em grupo - Entrevista em grupo. Como se desenrola este tipo de entrevista? Um líder de grupo orienta a discussão de um pequeno grupo de entrevistados. O grupo tem um tema em comum e o entrevistador visa estudar a discussão e a interacção entre os membros para daí extrair conclusões que constituem a informação.
2- Princípios a ter em conta na condução das entrevistas não dirigidas
1º Não dirigir o entrevistado; apenas guiá-lo e manter-se interessado no que ele fala
a) O entrevistado deve ter liberdade de falar. Deve abordar o tema como quiser.
b) O entrevistador não deve fazer perguntas específicas; deve permitir uma análise detalhada, manifestar interesse e prestar atenção do princípio ao fim.
c) Algumas formas de se mostrar atento são:
- Locuções - "Sim", "entendo", "uum…uum…".
- Olhares e assentimentos de cabeça.
d) Não deverá haver, da parte do entrevistador, reacções pessoais avaliativas ou
interpretativas.
e) Durante esta forma de entrevista ocorrem muitos silêncios. No entanto, o entrevistador deve manter-se absolutamente interessado, pois geralmente o entrevistado encontra-se numa situação de reflexão.
2º Levar o entrevistado a precisar, desenvolver e aprofundar os pontos que coloca espontaneamente
a) Se o entrevistado coloca outros temas relacionados com tema central da entrevista e se dedica ao seu desenvolvimento, o entrevistador não deve dete-lo e deve escutá-lo.
b) Se o entrevistado apenas menciona os temas mas não os precisa, o entrevistador
deve voltar aeles, aproveitando algum momento de pausa ou silêncio.
3º Facilitar o processo de entrevista
a) Em certas situações, o entrevistado repete coisas já ditas, cai em contradições ou se detém não chegando aos aspectos centrais da pesquisa. O entrevistador deve retornar às colocações feitas de modo a esclarecê-las.
4º Esclarecer a importância do problema para o entrevistador
a) O entrevistador não deve apenas registar a fala do entrevistado, mas o que ele quer dizer, as suas atitudes implícitas (o que realmente interessa ao sujeito).
b) Para isso, o entrevistador deve seguir atentamente a entrevista e estudar, se o entrevistado está realmente "internalizando" o processo ou emitindo opiniões
superficiais.
c) Os sintomas que ajudam a detectar problemas no decurso da entrevista são os
seguintes: repetições, discordâncias, evasivas…
d) Estes sintomas devem ser analisados pelo entrevistador para determinar a
necessidade de intervir, retomando aspectos já colocados pelo entrevistado:
Ex.: Você menciona tal assunto, poderia explicar-me algo mais sobre ele?
Ex: Em relação a tal assunto, qual foi a sua reacção?
Em conclusão: A entrevista não directiva é uma técnica poderosa para detectar atitudes,
motivações, opiniões do entrevistado. Exige, porém:
a) Muita atenção e preocupação do entrevistador para evitar que se transforme em algo
tedioso e frustrante;
b) Muita atenção no sentido de evitar atitudes autoritárias ou paternalistas;
c) A cooperação e a disposição para esclarecer dúvidas por parte do entrevistador;
d) A não manipulação do entrevistado (como aliás acontece com outros tipos de
entrevistas)
3- Fases da entrevista
A entrevista enquanto técnica de recolha de dados em pesquisa social passa pelas seguintes fases:
1º Preparação - Na fase da preparação da entrevista, vamos decidir o tipo de entrevista que vai fazer, estando essa decisão dependente do(s) objectivo(s) do estudo. Se optarmos por entrevistas estruturadas (dirigidas/directivas), temos de elaborar o questionário; se for semi-estruturada (semi-dirigida/semi-directiva), é o formulário (conjunto de perguntas que são colocadas e anotadas por um entrevistador numa situação face a face com outra pessoa). Para além disto, é também nesta fase que se deve fazer a formação dos entrevistadores, o que depende dos nossos objectivos. Quanto mais estruturadas forem a entrevistas, menos importante será essa formação.
2º Realização - A realização da entrevista passa por dois momentos:
2.1. Contacto inicial - Nesta sub-fase, tenta-se motivar o entrevistado, e para
isto contamos com o conteúdo e connosco (enquanto entrevistador) para fazer com que o
entrevistado responda. É fundamental ser cordial e estar apresentável (por exemplo, ter cuidado com a forma como nos vestimos).
Por outro lado, temos de ganhar a confiança do entrevistado para que este seja sincero nas suas respostas:
•apresentar uma credencial, mesmo até nas questões de sondagens de opinião pública;
•garantir que a entrevista é anónima e confidencial;
•explicar quais as finalidades do nosso estudo;
•revelar a entidade que apoia o nosso estudo;
•realçar a importância da colaboração do entrevistado.
É, pois, fundamental estabelecer uma boa relação entre o entrevistado e o entrevistador, sendo discreto sem dar opiniões e conseguindo um bom insight, ou seja, estabelecer uma tal relação, de forma que quando a pessoa não responde porque não quer, temos de renovar a confiança de forma a conseguir que ele responda.
2.2. Condução da entrevista - Alguns cuidados se deve ter, no desenrolar
propriamente dito da entrevista, a saber:
• Verificar se obtemos as respostas a todas as questões que tínhamos
planeado. Nenhuma questão deve ficar por responder e por isso o entrevistador deve ser bastante criativo e perspicaz.
• Por vezes é necessário estimular o entrevistado a dar-nos as respostas
(sobretudo quando o entrevistado é introvertido ou tem dificuldade em responder).
• Em determinadas situações é importante que o entrevistador esclareça
algumas respostas que lhe parecem vagas.
• O entrevistador durante o decurso da entrevista deve quebrar algumas barreiras que surgem ou podem surgir na comunicação, adequando a linguagem à do entrevistado; colocando as questões de forma pausada e dando um espaço de tempo entre elas; mesmo depois de obter a informação que queria e o entrevistado continuar a falar, não se deve interromper o entrevistado (se o fizer, isso pode afectar a relação entrevistador-entrevistado).
• O entrevistador não deve também saltar de uma forma abrupta de um assunto
para outro (deve haver uma continuidade entre os vários assuntos).
• Não se deve colocar questões que possam sugerir automaticamente a
resposta do entrevistado (ex.: Não acha que….?).
3º Encerramento - Quando terminamos a entrevista, devemos ter a consciência de que
podemos ter necessidade de contactar a mesma pessoa. Deve-se deixar a sensação agradável na pessoa de que foi agradável participar no nosso estudo; deve-se deixar no entrevistado com vontade de participar noutro estudo. Deve-se também agradecer a colaboração da pessoa.
4º Registo - Esta fase acompanha todo o processo da entrevista.
4- Formas de registo da entrevista
A forma de registo da informação da entrevista pode assumir várias facetas:
• Memorizando as respostas- Pode ser uma forma de registo, mas tem a
importante desvantagem de nos esquecermos de aspectos importantes, uma vez que os
sentidos são muito selectivos.
• Usar o gravador ou câmara de filmar - Um aspecto fundamental com
esta modalidade de registo, é a necessidade de pedir autorização ao entrevistado para o seu uso (por questões éticas). Tem a importante desvantagem do entrevistado poder-se sentir inibido perante o gravador.
• Uso das anotações - Esta modalidade de registo exige do entrevistador alguma habilidade, ou seja, quanto mais treino tiver nas anotações tanto melhor.
No final da entrevista é necessário que o mesmo complete as anotações, mas não pode ser depois de muito tempo.
5- Algumas normas ou dicas para a realização de entrevistas
a) Criar com o entrevistado um ambiente de amizade, identificação e cordialidade.
b) Ajudar o entrevistado a adquirir confiança.
c) Permitir ao entrevistado concluir o seu relato e ajudar a completá-lo comparando datas e factos.
d) Procurar formular perguntas com frases compreensíveis; evitar formulações de carácter pessoal ou privado.
e) Actuar com espontaneidade e franqueza.
f) Escutar o entrevistado com tranquilidade e compreensão.
g) Evitar a atitude de "protagonista" e o autoritarismo.
h) Não dar conselhos nem fazer considerações moralistas.
i) Não discutir com o entrevistado.
j) Não prestar apenas atenção ao que o entrevistado deseja esclarecer, mas também ao que não deseja ou não pode manifestar, sem a sua ajuda.
k) Evitar toda a discussão relacionada com as consequências das respostas.
l) Não apressar o entrevistado, dar o tempo necessário para que este conclua o relato e considere os nossos questionamentos.
in: http://www.estig.ipbeja.pt/~mica/Sebenta_MI_ENTREVISTA.pdf


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